A paixão

É uma viúva de negro vestida, sessenta e oito anos bem apessoados, algo opulentos na robustez das carnes torneadas.
Os filhos, embrenhados na vertigem dos dias preenchidos, vão agradecendo a filiação com telefonemas dominicais e visitas de efemeridade.
Os netos, ânsia secreta de segunda maternidade, tão perto e tão longe, perdidos pela lassidão dos fios condutores.
Teve momentos de desespero, amachucada pelo abissal vazio que só sente quem sempre viveu para os outros e um dia se encontra sem objecto nem objectivo, com a consciência de nunca ter sido sujeito de coisa alguma.
Encontrei-a hoje na esplanada, teclando, absorta, no seu computador portátil, encastrado em bolsa de risquinha cinzenta, o dedito bojudo acima-abaixo.
Mesmo que a risquinha cinzenta não me tivesse, de imediato, levado a concluir que aliviara o luto, o brilhozinho nos olhos castanhos-cachorro fiel era inconfundível.
Como gostei do rubor que lhe subiu às faces quando me apresentou o velhote de fato de linho sentado a seu lado: "É o Manuel, foi ele que me iniciou nas informáticas…"
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